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Por: Ronald Villardo – O Globo
RIO – A noite é pop. Uma passeada rápida pelas pistas cariocas confirma o fato de que a maior parte das opções noturnas está embalada pela mesma trilha sonora, geralmente descrita por divulgadores com a indefectível frase "na festa tocará de Madonna a Lady Gaga", seja lá o que isso quer dizer.
O pop mais fácil (que, aliás, está bem longe do bom pop produzido por Madonna e Lady Gaga) vem norteando o trabalho não apenas dos DJs de ocasião (o velho truque do "não DJ convidado") como também o de alguns ditos profissionais. Bravamente, um grupo de DJs, produtores e frequentadores resiste a esta uniformidade. E eles não estão de brincadeira. Em vez de reclamar da vida e de se lamentar nas redes sociais, esta turma prefere se juntar nas barricadas contra o exagero da mesmice pop para revigorar a cena que um dia já teve os nomes de alternativa ou underground.
A dupla Bernardo Campos e Pedro Mezzonatto (foto) já ligou a ignição. Residentes da noite mensal Do Hauze, que rola hoje no Dama de Ferro, os DJs criaram há dois anos o blog Molotov 21, em que comentavam o que a intelligentsia eletrônica chama de "cena". Pois este ano o blog virou site, que também deu cria: o selo musical Molotov 21, com dois EPs já vendidos no portal gringo Beatport.com . Como se não bastasse, o duo ainda inaugurou uma nova fase na noite carioca ao promover, em maio, a primeira grande união de quatro dos mais importantes núcleos de produtores e DJs do underground para produzir e assinar uma única festa: a Quadra, cuja próxima edição rola na terça-feira (06.09), véspera de feriado, no Clube Santa Luzia.
- As pessoas perguntam como conseguimos juntar todo mundo, mas nem foi tão difícil, apesar de algumas diferenças musicais. E já até pagamos adiantado o cachê do DJ convidado – orgulha-se Bernardo, referindo-se ao americano Russ Yallop, da gravadora Crosstown Records, a grande estrela da noite que une o núcleo Molotov 21 ao Tropical Beats (selo dos DJs Flow e Zeo), La Folie (coletivo liderado pelo DJ Fernando Barbosa) e House It (projeto do DJ Vicente Amadeo).
A união de tantos artistas e marcas em torno de um projeto único é inédita na noite carioca. Quem já tem muitas horas de voo, quer dizer, de pista sabe que os clãs de festas e selos musicais resistem a dividir um público que parece minguar a cada temporada.
- Vivemos a época da festa de rede social. Se antes era o DJ quem atraía mais público, hoje vence o promoter que passa mais tempo conectado postando fotos – conta Adriana Lima, que admite viver dias difíceis à frente do Dama de Ferro.
Para o DJ Léo Janeiro, integrante do trio Ask2Quit e um dos sócios da noite Bootleg, as pistas de pop engordaram porque nos últimos tempos a eletrônica… estava chata mesmo.
- Quando o minimal começou a tomar conta das pistas, em 2005, tudo ficou sério demais – teoriza.
O DJ engorda a lista dos que partiram para a ação. Juntou a turma da Bootleg (que também inclui João Paulo, Marcio Careca e Jonas Rocha) à Tropical Beats e ao coletivo La Folie para criar a festa Blend, que estreia em novembro, no Clube Santa Luzia.
Janeiro lembra que o foco da Blend não são os viúvos de época alguma. A nova noite quer na pista os representantes do que ele define como "um novo underground".
- As novas gerações são menos preconceituosas, mais abertas a novos sons, vivem à noite, mas também vão à praia – afirma.
Nada do que foi, portanto, será do jeito que já foi um dia, acredita Cabbet Araujo, sócio do Fosfobox
- O Fosfobox já abrigou festas pop, mas estas noites costumam ter foco exclusivo no lucro. Enquanto eu existir, este clube será predominantemente underground – decreta Cabbet.
A opção do empresário é parecida com a de Sandra Mende, barwoman e produtora da Menos, que rola domingo, com DJs RM2 e Tatá, na Lapa:
- Só posso fazer o que gosto e acredito. Paga-se um preço por isso. Mas é assim.
Clarisse Miranda, sócia de Guilherme Acrízio na semanal Wallpaper (há duas semanas, a comemoração de um ano reuniu 1.500 na pista menor da The Week), reforça a postura mais "relax" no duelo underground x pop.
- Não se pode levar tudo tão a sério – diz ela.
Fabiano Moreira, produtor da Bootie Rio (tem nesta sexta-feira), parece ter encontrado o equilíbrio perfeito, já que uma festa de mash-ups consegue, em tese, reunir interesses diferentes de uma tacada só.
- A Bootie é uma noite pop, mas com um conceito. Não chamamos só os amigos para tocar, são DJs profissionais, alguns de Booties de outros países – diz.
O esforço dos heróis da resistência dá tanto ânimo ao cenário alternativo que o mestre do underground carioca, DJ Maurício Lopes, testemunha de várias fases da tal "cena", sinaliza com otimismo:
- Esta situação já começou a ser revertida.
Tomara.
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September 3rd, 2011
rcgomes
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